segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Viajar na viagem também é viajar na sua cidade



Pequeno burguês só anda de busão por folclore ou se estiver sendo vítima de sequestro-relâmpago. Contudo, o nosso passeio sábado até o Centrão foi uma fruição. 


Almoço no Fuentes, Mosteiro de São Bento, Galeria do Rock etc. 


Foi como praticar turismo internacional sem sair do lugar.


Brasileiro tem mania de só fazer certas coisas ao sair de seu solo pátrio. Jogar lixo no lixo, atravessar na faixa, comer de boca fechada e tentar - por vezes de modo surreal -  falar o idioma alheio.


Agora, em seu próprio domicílio faz tudo às avessas. Pior: desconhece o que há de melhor e ainda escarnece de nossas melhores virtudes. 


É por isso que agora farei cada vez mais incursões pela Paulicéia e adjacências.


Com isso, evito filas de aeroporto, cara feia de comissária de bordo, maus tratos em alfândegas e outros constrangimentos com meus compatriotas. 


Xavier de Maistre falou e disse há séculos em seu "Viagem ao Redor do Meu Quarto". Até Machadão chupou...


O Ricardo Freire talvez não vá curtir isso, mas "viajar na viagem" também é viajar na sua própria cidade

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Bagulho.net





Puxando uma cana forte na detenção
Sem direito a liminar, sursis, apelação
Comendo pão dormido, quirera e quiabo
É que a cabeça vira oficina do diabo

Foi quando disse ao Gildete
Cansei de levar bofete
Um provedor de internet
Vai ser nossa bola sete
Veio e-mail, pagô frete
Erva sai, ninguém se mete

Que o nosso leite
E o Old Eight
É com o Bill Gates

Foi um estrondo o tal do marketing viral
Lá no orkut tem “bagulho virtual”
E aprimorando o nosso empreendimento
Vamo abraçá sequestro e venda de armamento

Mas que tesão esse insight
Se apropriá do k-byte
Pra angariar toda night
Uma graninha, all right?
Feito turnê do Foo Fighters
E nesse pique bem light
Vamos criar nosso site

Que o nosso leite
E o Old Eight
É com o Bill Gates

Não tem negócio mais rentável no momento
Dá mais retorno do que fabricar cimento
É risco zero, uma burra de dinheiro
E a mão-de-obra é abundante em cativeiro

Tem muito presidiário
Ladrão, punguista, falsário
Vivendo feito otário
Vamo pegá os canário
Tirar de dentro do armário
Pagar a eles salário
Pra ser nosso funcionário

Que o nosso leite
E o Old Eight
É com o Bill Gates

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Desejos tardios




Foi assim o acontecido.
Aniversário de 75 anos de vó Zizi. Na mesma data, comemoração das bodas de ouro com vô Nofrinho.
Sobrado cheio de filhos, netos, bisnetos - bacalhoada.
Chegou o momento de cortar o bolo.
Todos falavam ao mesmo tempo:

- Corta o bolo de baixo pra cima, vó!

- Não fala o “desejo” senão ele não acontece, hein?

Foi aí que vô Nofrinho surpreendeu a todos:

- Esse ano precisamos contar a todos o nosso “desejo”, meus filhos…

Protestos, assobios, gritos. Mas vô Nofrinho não se abalou:

- Sua avó e eu queremos experimentar um baseado.

Um silêncio sepucral envolveu o ambiente. Vó Zizi continuou:

- Tudo que a gente vê é falando dessa erva. É filme, é música, é artista fumando. Agora, com essa idade redonda, nós queremos provar. O quê é que tem?

A turma do deixa-disso tentou dissuadir o casal – maconha era pésssimo para saúde, levava a outras drogas, podia cegar etc - mas não houve acordo.

- Não morro sem conhecer esse tal desse “beque” – sentenciou Vô Nofrinho e saiu da sala.

 Lilita, a filha mais velha, virou-se para o marido e perguntou, atônita:

- E agora, Conrado?

- É fazer o desejo dos velhos…

- É, mas quem vai arrumar o fininho?

- Dentro daquela tua caixinha de maquiagem não tem um?

- Tem, Conrado, mas é pra quando eu tô com cólica.

- E você tem cólica menstrual todo dia, Lilita?

- Cada um com seus problemas. E você? Não arruma um lá dos seus?

- Meus?

- Os que estão naquela lata, no teu cofre, que eu sei.

- Aquilo é skank, mulher. Se a dona Zizi fumar aquela bomba ela vai ver Santa Rita de Cássia dançando bolero!

Nesse momento, o caçula Joquinha, gritou do quarto:

- O biso caiu!

A emoção pela festa levara Vô Nofrinho à uma brusca baixa de pressão.
Formou-se um rebuliço. Lilita chamou logo o vizinho, dr. Levy, cardiologista recém-formado. O  médico entrou no quarto e fez um longo exame no vovô. A família ficou impaciente.

- Todo esse tempo! Será que aconteceu alguma coisa grave?

Conrado resolveu bater na porta. Dr. Levy saiu e acalmou a todos:

- Dei uma ponta das minhas pro seu Onofre e outra pra Dona Zilá. Os dois agora estão na paz.

E, antes de voltar para o quarto enfumaçado, disse:

- Alguém podia trazer um prato de doce que os dois estão numa larica forte?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O quarto concreto - uma homenagem ao Bloomsday










Surgiu um novo elemento para sacudir a polêmica em torno do movimento artístico mais discutido dos últimos tempos no Brasil.

Além de Augusto, Haroldo e Décio apareceu um quarto poeta reinvidicando sua participação no movimento: Anfrísio dos Santos.

Maranhense de Codó, dono de uma casa de material de construção em Carapicuíba, Anfrísio afirma que o Manifesto Concreto foi escrito a oito mãos e garante ter coautoria também, entre outros, no célebre poema “Beba Coca-Cola”, do colega Décio.

A comunidade artística ainda se encontra perplexa, pois, para seus pares, o quarto concreto de origem maranhense seria o poeta Ferreira Gullar, não Anfrísio dos Santos.

Procurado por jornalistas da área cultural, o autor de “Poema Sujo” não quis se manifestar alegando que só dará novos depoimentos assim que acertar um novo corte de cabelo diferente do atual “chanel” na altura do pescoço.

Abaixo o depoimento completo de Anfrísio da Silva, o quarto concreto:

Pergunta: Como o senhor tomou contato com o grupo de poetas concretistas de São Paulo?

Anfrísio da Silva:  Eu era assistente de pedreiro e fazia uns bicos numa firma de dedetização. Por acaso, dei de cara com o Décio na Praça da República, na hora do meu almoço. A gente estava dividindo o mesmo banco. Ele estava lendo “Os Ratos”. Vi aquele nome na capa e falei assim: “Ratos? Disso eu entendo”.

Os olhinhos do Décio brilharam. Falou pra mim: “você entende de Dyonélio Machado?! Não posso acreditar! Outro, além de mim, valoriza o verdadeiro Joyce brasileiro!”

Não entendi muito bem aquilo que ele estava falando. Mas aceitei na hora o convite pra fazer um trabalho concreto na casa dele.

P: O senhor tinha ideia do que era Concretismo?

AS: Ideia, ideia assim eu não tinha. Cheguei a pensar que o Décio queria fazer um calçamento novo na casa. E, apesar de estar mexendo mais com barata, formiga e rato, podia muito bem fazer um extra e levantar um dinheirinho reformando a residência do homem.

P: E o que aconteceu quando chegaram à casa de Décio?

AS: Bom, estavam lá os dois irmãos, os Campos. O Décio me apresentou dizendo que eu conhecia o Dyonélio. O Haroldo, largou um livrão que parecia uma Bíblia em cima da mesa, e foi logo me abraçando. O Augusto desligou a vitrola e fez a mesma coisa. Foi quando o Décio falou assim: “tem algum texto teu aí por acaso pra gente fazer uma leitura?” O que eu tinha no bolso era um papel desses de pão, com o pedido do material do calçamento que eu vim escrevendo no ônibus pra mostrar pra eles. Peguei e entreguei o papel todo amarrotado pro Décio.

P: E o que ele fez?

AS: Começou a ler o meu pedido em voz alta. E os outros dois irmãos ouviam, muito quietos, de olhinho fechado. Eu me lembro até hoje: “Simento, arêa, tigolo, maça de pedreiro, duas pá, uma cuié, pedriscu”. Fiquei atrapalhado por ele ler aquela besteirada como se tivesse cantando o “ouviram-do-Ipiranga-às-margens- plácidas”, sabe aquele respeito? Quando ele parou, o Haroldo tomou o papel e botou os olhos em cima foi tempo, mas tudo no maior silêncio. Demorou uns dez minutos pra ler aquele tiquinho de palavra.

P: Haroldo chegou a fazer algum comentário?

AS: Fez não. Passou pro irmão, que deu de ler o papel também. Cheguei a pensar que tinha ofendido eles com o meu palavreado mal ajambrado de trabalhador braçal. Por fim, o Décio pegou o telefone e ligou pra um tal de Cabral lá no Rio de Janeiro. Deu de ler o papel de pão de novo, agora com mais força na voz ainda. Quando desligou, veio e perguntou se eu tinha contato com o Guimarães. Ou com um tal de um conterrâneo meu, do Maranhão - Souza Andrade, se não me falha a memória. Disse a ele que meu contato era só com o Carlos. Quando falei esse nome, os três começaram a berrar  “Drummond! Drummond!” – urravam feito bezerro desmamado na sala. Eu doido pra explicar que o Carlos que eu tratava era o Carlos Pipa, dono da loja de material de construção da Barão do Triunfo, mas ficou por isso mesmo.

P: E os desdobramentos desse primeiro contato? Como Anfrísio dos Santos saiu do trabalho braçal, da vida feita de bicos, para a Alta Poesia?

AS: Bom, depois de uns dias, os três me apresentaram a um mestre-de-obras amigo deles, o Oscar. Prepararam uma comedoria para o homem que não foi mole. Devia ser muito bom mesmo o sujeito. Quando ele entrou na sala, o Augusto disse no pé do meu ouvido: “Anfrísio, esse homem fez uma cidade inteirinha”. Pois bom, com esse eu podia me entender, era do meu ramo. Quando estavam na sobremesa, arranquei do bolso outra lista de material de construção e li pro Oscar. Dessa vez eu mesmo e bem alto: “Argamaça! Baldrame! Asso! Têia! Pedra mineira!”. Assim foi. Acabou que o mestre-de-obras me chamou de um nome que até hoje eu não sei o que é: “proletário”. Uma coisa assim. E, na hora, me convidou para entrar no Partido dele.

P: E o senhor aceitou?

AS: Ora se aceitei. Vou ficar de fora de um Partido que só tem pedreiro como eu? E fiz muito bem. Um ano depois, eu estava lá na Rússia declamando lista de material de construção e o povo batendo palma. Foi aí que fiquei conhecido como poeta concreto pra valer.

P: É verdade que o senhor é coautor do poema "Beba Coca-Coca"?

AS: Sim, é meu também.

P: Explique melhor a sua versão.

AS: Eu gostava de Grapetti, um refrigerante que tinha naquela época. Eu chegava no boteco perto da casa do Décio e dizia pro português: "quem bebe Grapetti, repete". Todo dia eu dizia aquilo. E o povo ria de mim. Um dia eu vi o Décio, concentrado, escrevendo sobre a Coca-Cola num papel. Eu perguntei assim: "quem bebe coca-cola, repete?". Ele riu assim e falou: "obrigado, Anfrísio, era essa repetição que faltava no poema".  Por isso eu me considero dono da ideia junto com ele.

P: E como explicar esse seu sumiço de tantos anos e o porquê da sua opção de montar uma loja de material de construção em Carapicuíba?

AS: Depois que voltei da Rússia começaram a chamar o Oscar de um tal de stalinista. Não conhecia aquele nome, mas devia ser coisa ruim. No dia que passaram a me chamar desse nome também foi que eu vi. Vinha o povo com as pedras na mão, me chamando dessa coisa e jogando a pedregulhada por cima. Foi aí que me desgostei e tomei a decisão de mudar de vida.

P: E como foi essa mudança?

AS: Eu apanhava as pedras que jogavam em mim, botava numa caçamba e vendia pras obras lá da periferia. Com o tempo, fui juntando tijolo e cimento. Logo estava com a loja montada.

P: O senhor conhece Charles Sanders Pierce?

AS: Não.

P: Ezra Pound?

AS: Não.

P: T.S. Eliot?

AS: Conheço não senhor.

P: E como faz Literatura?

AS: Eu não faço Literatura, faço concreto.