Sinval e Heleno



Promete 2010, não acha? Copa, esses papos de Pré-Sal, etanol….

Você acha?

Sei lá. Todo mundo só fica falando essas paradas de progresso no Brasil. Que o Lula deu uma rasteira no Obama, nessa da Olimpíada ser aqui e não nas gringas.

Mas e na nossa área? Os passaralhos não continuam nas agências? Agora mesmo não raparam o Almirzinho?

O Almirzinho do Free Hand? Caraca! O maluco era um avião nesse programa, cara.

É. Rodou. Agora é só Free. Não teve Pré-Sal que segurasse a Hand dele.

Pô, não fala isso. Por que redator é tudo assim, pessimista, negativo? Será que é por que vocês ficam lendo toda hora? Ó, leitura demais não é bom pra publicidade, sabia?

Quem disse isso?

Ninguém. É tipo uma tese minha.

Desembucha a tua linda tese, diretor de arte letrado…

Seguinte, Heleno: se o cara lê demais, especialmente autor MUITO intelectual, ele fica meio na vibe do escritor.

Vibe?

Se o cara lê Shakespeare demais, ele depois acaba fazendo um texto shakespeariano pra passar na novela das oito. Se ele lê o Machado de Assis, o copy dele fica fake, não funciona, por exemplo, num programa da Luciana Gimenez.

E isso é ruim?

É claro que é. Um copy shakesperiano pra vender batida de fruta tropical com pinga Corote não vai ficar muito impactante, não acha? Ou então o roteiro de um comercial pra O.B. naquele jeitão do Dom Casmurro falando vai ficar um horror… Classe C, D – que é quem compra - não quer texto inteligente, quer pau e bola.

Mas espera um pouco, o cara pode ler o William Faulkner inteiro e saber separar as coisas. Um redator bom precisa saber escrever em vários estilos diferentes.

Em termos. Porque eu duplei com um redator que só sabia fazer texto de anúncio.

Como é que é o negócio?

Tinha que passar os títulos pra outro fazer. Mas, meu, não tinha melhor redator de texto de anúncio que o cara no Brasil. As palavras que ele usava, você tinha que ver. Parecia música. Se tivesse uma categoria “melhor texto de mídia impressa” em Cannes o sujeito já tinha trazido o Grand Prix pra cá.

Nunca ouvi falar disso na vida, Sinval.

Mas tem. E, olha, esse redator só de texto de anúncio não lia parada nenhuma complicada. Nunca vi o cara lendo nada. Eu acho até que, no fundo, redator de propaganda não tinha que ler xongas. Pra não influenciar. No máximo, site sobre marketing, publicidade.

Vou doar meus livros do James Joyce pras Casas André Luiz…

Boa! O mundo vai perder um redator metido à besta e ganhar um publicitário que sabe falar com o povão. E, tchau,que eu preciso ver um lance na Finalização.

(Publicado na Revista "Propaganda" - janeiro de 2010)

Comentários

  1. Sensacional! A propraganda está cada vez mais fechada, no seu mundinho.

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